De corpos frios não se levanta uma fagulha. Nada cintila. São corpos desapaixonados, estremunhados pela obrigação e aborrecidos no despertar. Serve isto para explicar o empate entre Sp. Braga e V. Setúbal. Sem paixão e rubor não há táctica ou ideias que resistam. Lucraram os sadinos com o apego emocional e arrojado ao primeiro tempo, reagiram os arsenalistas após o intervalo.
Domingos Paciência terá muito a fazer nos próximos tempos. Não é normal, nada normal, que uma equipa com as obrigações do Sp. Braga inicie um jogo da forma como o fez. Perfeitamente desleixada, absolutamente frígida, sem qualquer pulsão no seu âmago.
Pode questionar-se a opção do técnico pela colocação dos pouco rodados Keita e Meyong na frente, em vez de Lima, é verdade. Atacar três torres graníticas (Collin, Valdomiro e Ricardo Silva) com duas torres estáticas e impassíveis não faz sentido. E nem é necessário consultar A Arte da Guerra, de Sun Tzu, para sabê-lo.
Terá sido este um dos males arsenalistas, que não o único. A tal ausência de compromisso com a partida e a fragilidade (ou desconcentração) da dupla de centrais ajuda a finalizar o ensaio de críticas. Incompreensível a passividade no golo de Djikiné (resultante de um canto de Neca na esquerda), inaceitável o bloqueio de Rodríguez ao falhar e a isolar o incontrolável Pitbull no segundo.
Curiosamente, bastou uma troca de consoantes para o V. Setúbal entrar numa onda de declínio e estimular o avanço contrário. Saiu Neca, entrou Zeca, a equipa sadina perdeu qualidade na posse de bola e nunca mais soube gerir a sua ambição e objectivos na peleja.
Os setubalenses limitaram-se a usar e abusar das perdas de tempo, alimentando o fogo que, por esta altura, já lavrava a alma do Sp. Braga. O golo de Hélder Barbosa foi o início de uma partitura ritmada e convincente por parte dos vice-campeões nacionais, que tocaram o céu no momento do 2-2: Guilherme, atenção a este menino, num pontapé soberbo ao ângulo superior direito.
Fruto da paixão, o Sp. Braga atenuou o desamor que foi o primeiro tempo. Foi honesto e intenso nos últimos 35 minutos e evitou a derrota em casa frente a um humilde, muito humilde, V. Setúbal (reduzido a dez a partir dos 67, por expulsão de Ney).
Mas será esta a relação que se espera do emblema minhoto com a competição? Não será exíguo este argumento para um clube que tanto se aproximou dos três grandes ao longo dos últimos anos? As respostas são óbvias e coincidentes: não.